Blink!

October 23, 2010

Blink! é um longo inventário de situações que se cruzam e entrecruzam, como muito em comum, a começar pela sua relação com as decisões intuitivas e o inconsciente, com decisões informadas, decisões subinformadas e decisões excessivamente informadas.

Malcolm Gladwell fala-nos de diversas situações em que mudando a quantidade de informação utilizada para tomar decisões (mesmo aqueles decisões instantâneas, de vida ou morte, ou se gostamos ou não de uma pessoa) a decisão teria sido completamente distinta.

Eis alguns exemplo:

Recentemente, a investigadora clínica Wendy Levinson gravou centenas de conversas entre um grupo de médicos e os seus pacientes. Cerca de metade dos médicos nunca tinham sido processados. A outra metade fora alvo de processos judiciais pelo menos duas vezes, e Levinson, tendo como base apenas as conversas, verificou que havia diferenças claras entre os dois grupos. Os médicos que nunca tinham sido processados passavam mais três minutos com cada paciente do que os que o tinham sido (18,3 minutos em vez de 15). Eram mais passíveis de fazer comentários «de orientação», tais como: «Primeiro faço-lhe um exame, e depois falamos no assunto», ou então: «A seguir teremos tempo para responder às suas perguntas», o que ajudava os pacientes a perceber o que é que se pretendia com a consulta e quando é que podiam fazer perguntas. Esses médicos eram mais susceptiveis de ouvir com atenção, dizendo coisas como: «Vá lá, fale-me mais disso» e eram mais suscéptiveis de rir e dizer piadas durante a consulta. É interessante saber que não havia diferença na qualidade ou quantidade de informação que davam aos doentes; não forneciam mais pormenores sobre os remédios ou sobre a situação do doente. A diferença era exclusivamente a maneira como falavam com os doentes.

Na realidade pode levar-se a análise ainda mais longe. A psicóloga Nalini Ambady ouviu as gravações de Levinson, concentrando-se nas conversas que tinham sido gravadas apenas entre so médicos e os seus doentes. Para cada cirurgião escolher dois doentes. A seguir, de cada uma das conversas, escolheu dois fragmentos de dez segundos com o médico a falar, ficando, portanto, com uma fatia de 40 segundos. Finalmente filtrou o conteúdo das fitas, o que quer dizer que removeu os sons de alta frequência da fala que nos permitem distinguir as palavras umas das outras. O que fica depois dessa filtragem é uma espécie de algaraviada que preserva a entoação, o timbre e o ritmo, mas elimina o sentido. Usando essa «fatia fina» – e somente essa fatia -, Ambady fez uma análise do género das de Gottman. Pediu a avaliadores que classificassem as fatias de algaraviada, à procura de parâmetros, tais como calor, hostilidade, arrogância e nervosismo e descobriu que usando apenas esses valores era possível separar os médicos que tinham sido processados dos outros.

Este é um dos muitos exemplos que se podem encontrar no Blink!. Blink! é um livro sobre aquelas decisões que não percebemos, que acontecem, como nos diz o autor, por detrás de uma porta fechada.São muitas, e raramente as conseguimos realmente justificar. Muitas vezes não nos apercebemos mesmo que acontecem.

Um excelente livro, que recomendo vivamente.

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