Archive for the ‘filosofia’ Category

A Última Aula

Saturday, October 23rd, 2010

A Última Aula é muito mais do que um livro. É realmente a última aula, dada por um professor catedrático, Randy Pausch, consciente de que essa seria a sua última aula.

Carnegie Mellon University, a Univerdade onde Randy terminou a sua carreira, teve em tempo um programa a que chamava A última aula, em que um professor convidado dava aquela que gostaria que fosse a sua última aula. No caso de Randy Pausch, devido ao problema de cancro que lhe tinha sido diagnosticado, essa seria mesmo a sua última aula. Ele sabia-o, e fez dessa uma aula que merece ser recordada.

Deixo-vos um pequeno estrato do livro, que foi escrito posteriormente a essa aula, estendendo-a:

Sonhar em grande

Os homens pisaram a Lua no Verão de 1969, tinha eu oito anos. Soube então que quase tudo era possível. Era como se todos nós, em todo o mundo, tivéssemos obtido permissão para ter sonhos em grande.

Nesse verão tinha ido acampar e, quando o módulo lunar poisou, fomos para a casa principal da fazenda, onde tinham ligado uma televisão. Os astronautas estavam a demorar muito tempo a organizar-se antes de poderem descer a escada e andar na superfície da lunar. Eu compreendia. Tinham muito equipamento, muitos pormenores a tratar. Eu era paciente.

Mas as pessoas que dirigiam o acampamento não paravam de ver as horas. Já passava das onze. Eventualmente, enquanto se tomavam decisões inteligentes na Lua, foi tomada uma idiota aqui na Terra. Era muito tarde. As crianças foram todas enviadas de volta às tendas para dormir.

Estava profundamente irritado com os directores do acampamento. O pensamento que me atormentava era o seguinte: «A minha espécie saiu do nosso planeta e aterrou pela primeira vez num mundo novo e vocês estão preocupados com a hora de deitar?»

Mas quando cheguei a casa, algumas semanas depois, descobri que o meu pai tinha tirado uma fotografia à nossa televisão assim que Neil Armstrong pisou a Lua. Tinha preservado o momento para mim, pois sabia que podia ajudar a desencadear sonhos em grande. Ainda temos essa fotografia num álbum.

Compreendo quem argumenta que os milhares de milhões de dólares gastos para colocar homens na Lua poderiam ter sido utilizados para combater a pobreza e a fome na Terra. Mas pronto, sou um cientista que vê a inspiração como derradeira ferramenta para fazer o bem.

quando utilizamos o dinheiro para combater a pobreza, isso pode ser de grande valor, mas, com demasiada frequência, trabalhamos à margem. Quando se colocam pessoas na Lua, inspiramo-nos todos para desenvolver o nosso máximo potencial humano, que é como eventualmente os nossos problemas serão resolvidos.

Permitam-se sonhar. Alimentem também os sonhos dos vossos filhos. De vez em quando, isso pode significar deixá-los ficar acordados depois da hora de deitar.

É um pequeno livro, que vale muito a pena ler. eu li-o, mesmo depois de já ter visto o video integral da aula, com cerca de uma hora e um quarto. Claro que depois de ler o livro voltei a ver o vídeo. O livro leva a aula um pouco mais longe, com novos exemplos, e com detalhes adicionais.

Vejam o vídeo, leiam o livro, e repitam, como eu já fiz várias vezes com o vídeo.

As pequenas coisas dizem muito

Saturday, October 23rd, 2010

Os pequenos pormenores – o seu tom de voz, as palavras exactas que utiliza quando participa em eventos em tudo o resto banais – comunicam imensas coisas.

Será que os pequenos detalhes, como uma ligeira mudança de expressão facil, têm importância?

Os seres humanos não incham como sapo nem mudam de cor como os camaleões. As nossas reacções evidenciam-se em expressões faciais mais subtis, em tons de voz e através da nossa linguagem corporal.

Pense no seguinte: reconhecer a expressão facial de alguém leva menos de um sexto de segundo. Somos capazes de processar expressões a mais de cem metros. Como conseguimos fazê-lo? Prestando atenção. Os seres humanos sintonizam-se com as expressões faciais enquanto indicadores daquilo em que os seus companheiros estão a pensar. Por sentirmos que as expressões faciais são importantes, consagramos-lhes a nossa atenção. Por prestarmos atensão às expressões faciais, reagimos a elas. Por reagirmos, as expressões faciais tornam-se importantes na nossa comunicação.

Da próxima vez que uma pessoa lhe perguntar se gostou do jantar que ela fez e o leitor disser que estava bom lembre-se de que o seu interlocutor está a prestar atenção não só ao que lhe diz, mas também a outras mensagens que lhe possa estar a transmitir.

A este juntam-se outros 99 segredos, naquele a que David Niven chamou “The 100 Simple Secrets of Happy People:…”. titulo que a gravida trazduziu para “Os 100 segredos das pessoas felizes”. Um livro que vale a pena ler devagarinho, e que lhe fala, não apenas de pequenas coisas como a forma de expressão, como no caso acima, como também nas vantagens de manter a mente aberta, de partilhar coisas com as pessoas que o rodiam, de forma estreita ou mais alargada, e muito, muito mais.

A não perder, ainda que se possa sempre lembrar o velho ditado que diz que “a felicidade não parte dos outros para chegar a ti, mas de ti para chegar aos outros”!

Um, ninguém e cem mil

Saturday, October 23rd, 2010

Escreve à páginas tantas, Luigi Pirandello:

Loucuras, forçosamente

No entanto, quero falar-lhes primeiro, sucintamente, das loucuras que comecei a fazer para descobrir todos os Moscarda que vivem nos meus conhecidos mais chegados e destruí-los um a um.

Loucuras, forçosamente. Porque, como nunca tinha pensado em construir um Moscarda que consistisse, a meus olhos e por minha conta, numa maneira de ser que me parecesse distinguir-se como própria e específica de mim, compreende-se que não me era possível agir com uma qualquer coêrencia lógica. De tempos a tempos, tinha de me revelar o oposto daquele que eu era ou supunha ser para um outro dos meus conhecidos, depois de me ter esforçado por compreender a realidade que me tinham dado: uma realidade mesquinha, necessariamente, volúvel e quase inconsistente.

No entanto, algum aspecto, algum sentido e algum valor devia ter para os outros, não só pelas minhas feições, fora da minha vista e da minha apreciação, mas também por muitas coisas em que até então nunca pensara.

Pensar e sentir um ímpeto de feroz rebelião foi obra de um momento.

Assim começa o capítulo 3 deste livro, em que Moscarda, o personagem-narrador desta aventura do autor italiano vai sucessivamente deconstruindo as imagens que os seus conhecidos têm de si.

Um deconstrução tão completa que acaba verdadeiramente Louco, como o Louco das cartas do Tarot, ou nas próprias palavras do narrador:

A cidade está longe. Por vezes, na calma do anoitecer, chega até mim o som dos sinos. Mas agora já não os ouço dentro de mim; ouço-os lá fora, a tocar por si, que talvez estremeçam de alegria na sua concavidade retunbante num belo céu azul cheio de sol quente por entre o estridular das andorianhas ou ao vento triste. Pensar na morte, rezar. Que ainda existe quem tenha esta necessidade e disso se tornam vozes os sinos. Eu já não tenho esse necessidade, porque morro a cada instante e renasço, novo e sem memória: vivo e inteiro, já não em mim, mas em cada coisa lá fora.

Um livro fenomenal.