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Contos de Fados Politicamente Correctos

Saturday, October 23rd, 2010

Mas, naquele ano, o Inverno chegou muito cedo (ou foi o Verão que se foi embora muito depressa, dependendo da orientação climatérica de cada um) e os campos rapidamente deixaram de produzir. A pobre cigarra achou-se vitima dos caprichos das alterações meteorológicas. Andou saltitando pelos campos em busca de sustento de qualquer espécie. Ter-se-ia contentado com uma migalha, uma casquita, um semente ressequida, mas nada encontrou que fosse comestível.

Até que vislumbrou a formiga, que, com toda a energia, arrastava atrás de si uma bela palha de trigo. A fome da cigarra levou a melhor sobre o seu orgulho e ela avançou, com a ideia de pedir à formiga que com ela repartisse um bocadinho do seu imenso pecúlio alimentar. Só que a formiga, mal avistou a cigarra, desatou a gritar.

«AAAAHHHHHHHHH!!! O que é que tu queres? Que estás aqui a fazer? Vinhas roubar a minha palha, não vinhas? Eu sei que tu andavas à espera do dia em que me havias de roubar tudo o que tenho! Eu conheço bem a tua laia!»

A cigarra bem tentou interrompê-la, mas a formiga prosseguiu: «Não me digas nada! Não me venhas com falinhas mansas e promessas vãs! Para ter o que tenho fartei-me de trabalhar, coisa que não está na moda em certos círculos.»

A cigarra respondeu delicadamente: «Mas olha, Irmã Formiga, com certeza que tens mais do que algumas vez serás capaz de comer.»

«Isso é um problema meu», disse a formiga, «e, que eu saiba, não vivemos em nenhuma republica socialista, daquelas que até o sangue nos chupam… pelo menos por enquanto! Vê lá se tomas juízo, cigarra! O único sítio onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.»

«Sabes, é que eu estava com ideias de ir para a Austrália, mas o tempo a modos que mudou e tudo o que era comida desapareceu…»

«É assim que funciona um mercado livre, minha. Vê se aprendes a lição»

Se estivessemos a falar dos tradicionais contos de fadas que todos conhecemos, a história ficaria por aqui, e nada mais haveria a acrescentar, mas neste conto politicamente correcto, o resultado é ligeiramente diferente.

A meio da conversas aparece um louva (que já não é a deus, porque isso foi proibido por decisão judicial), que se apresenta como auditor, que resulta, nas palavras do autor:

…bastando que se diga que o produto do açambarcamento feito pelo ganancioso insecto foi confiscado e destinado a fins comunitários mais responsáveis, na sequência da integração da formiga no sistema correccional. Enquanto isso, a cigarra organizava um programa para os jovens insectos da região desejosos de intercâmbio cultural com países dotados de climas mais quentes. Graças a uma redistribuição dos recursos do governo (e aos bens da formiga), a cigarra vem desde então até hoje guiando expedições de surfistas.

Assim, James Finn Garner agarra em vários contos de fadas e reescreve-os de forma, como ele próprios lhes chama “Politicamente correcta”.

Um livro que se pode ler ou não, mas sobre o qual não se pode certamente deixar de pensar depois que se ler.

Um, ninguém e cem mil

Saturday, October 23rd, 2010

Escreve à páginas tantas, Luigi Pirandello:

Loucuras, forçosamente

No entanto, quero falar-lhes primeiro, sucintamente, das loucuras que comecei a fazer para descobrir todos os Moscarda que vivem nos meus conhecidos mais chegados e destruí-los um a um.

Loucuras, forçosamente. Porque, como nunca tinha pensado em construir um Moscarda que consistisse, a meus olhos e por minha conta, numa maneira de ser que me parecesse distinguir-se como própria e específica de mim, compreende-se que não me era possível agir com uma qualquer coêrencia lógica. De tempos a tempos, tinha de me revelar o oposto daquele que eu era ou supunha ser para um outro dos meus conhecidos, depois de me ter esforçado por compreender a realidade que me tinham dado: uma realidade mesquinha, necessariamente, volúvel e quase inconsistente.

No entanto, algum aspecto, algum sentido e algum valor devia ter para os outros, não só pelas minhas feições, fora da minha vista e da minha apreciação, mas também por muitas coisas em que até então nunca pensara.

Pensar e sentir um ímpeto de feroz rebelião foi obra de um momento.

Assim começa o capítulo 3 deste livro, em que Moscarda, o personagem-narrador desta aventura do autor italiano vai sucessivamente deconstruindo as imagens que os seus conhecidos têm de si.

Um deconstrução tão completa que acaba verdadeiramente Louco, como o Louco das cartas do Tarot, ou nas próprias palavras do narrador:

A cidade está longe. Por vezes, na calma do anoitecer, chega até mim o som dos sinos. Mas agora já não os ouço dentro de mim; ouço-os lá fora, a tocar por si, que talvez estremeçam de alegria na sua concavidade retunbante num belo céu azul cheio de sol quente por entre o estridular das andorianhas ou ao vento triste. Pensar na morte, rezar. Que ainda existe quem tenha esta necessidade e disso se tornam vozes os sinos. Eu já não tenho esse necessidade, porque morro a cada instante e renasço, novo e sem memória: vivo e inteiro, já não em mim, mas em cada coisa lá fora.

Um livro fenomenal.

O riso do Sonâmbulo

Saturday, October 23rd, 2010


A árvore genealógica

O rapazinho (o futuro Grande Maggid de Mezeritch) não tinha mais de cinco anos quando a casa paterna foi incendiada. Ao escutar os gritos e as lamentações de sua mãe, ele disse-lhe:

- Porque choras tanto, mãe, por uma casa destruida?

- Oh! Não é pela casa destruida que me sinto desolada – responde a mãe -, mas só porque perdemos a nossa árvore genealógica no meio do fogo. Uma árvore genealógica que remontava a Yohanan, que era o fabricante de sandálias e um dos mestres do Talmude!

O rapaz olhou para ela e disse:

- A árvore genealógica! Mas o que é isso, mãe? Eu vou fazer uma nova, que começará comigo!

Este conto da tradição hassídica é um dos muitos que Jean-Louis Maunoury junto sob o titulo O Riso do Sonâmbulo.

São mais três centenas de páginas, e não serão por certo muito menos os contos, numa obra fenomenal, com a qual se perdem facilmente algumas horas de bom entretendimento, com muito em que pensar pelo meio.

Amor Portatil

Saturday, October 23rd, 2010

Passadas duas semanas era ela: «Querido, sou eu. Deixei ficar o carregador no norte e tenho tido imenso que fazer. Não estás zangado com o bebé, pois não?» Eu não consegui dizer nada, não tinha nada para dizer, doía-me demasiado. E ela continuou. «Está tudo aqui a falar ao mesmo tempo. Posso falar mais tarde? Então até já, amor.» Nunca mais falou.

Era assim que em 1999 Pedro Paixão terminava um dos seus contos. Não sei porque é um escritor que gosto de ler, para perceber como escrevo bem.

É que apesar de tudo, normalmente as pessoas conseguem perceber o que escrevo. Este gajo é professor catedrático, mas 90% das vezes eu ficaria horas a tentar perceber o que ele quer dizer, e onde quer chegar com as porras que escreve.
E ó despois os fins são sempre assim. O gajo deve ter um problema qualquer com mulheres. Parece que todas o abandonam.

O livro tem o mesmo nome do conto, Amor Portátil, e foi editado em 1999 pela Editora Cotovia.